À frente de ’15 minutos´, na MTV, sucesso no teatro e presente no cinema, (não-)ator é a revelação da temporada
Por Leonardo Lichote

Revelação do humor à frente do “15 minutos” (uma das melhores novidades da TV em 2008, no ar há menos de um mês na MTV), no elenco da peça “Z.É. – Zenas Emprovisadas” ou nas aparições em filmes como “Polaróides urbanas” e “Podecrer!”, Marcelo Adnet definitivamente não seguiu até aqui um caminho que se pode chamar de “formação clássica”. Não apenas por nunca ter estudado interpretação, como mostra o auto-retrato do artista quando jovem.
Com 8 anos, ficava empolgado com eleições, era fã do Mário Covas, desenhava-o em meus cadernos - lembra o ator de 26 anos.
Não assistia a desenhos animados. Gostava de cantar samba-enredo com voz de negão e imitar Gil Gomes, Silvio Santos. Na adolescência, caí para o lado nerd. Ficava no sofá lendo uns livros esquisitos. Estudei russo, enquanto todos os meus amigos faziam curso de inglês. Li sobre astronomia, Carl Sagan. Depois fui para o curso de Comunicação na PUC e fiz o caminho inverso, para o lado social, da popularidade.
Os elementos do humor de Adnet já se mostravam nessa trajetória. As imitações, a fixação por línguas, a facilidade de transitar do nerd ao popular com naturalidade – tudo isso fica ainda mais evidente em “15 minutos” (de segunda a quinta-feira, às 21h45m). O programa traz a sua cara, no cenário que reproduz seu quarto no Humaitá, com suas obsessões espalhadas em todos os cantos, como uma bola de futebol, mapas, livros de xadrez e dados.
O diretor Fábio Arantes, de “15 minutos”, se surpreende com a rapidez de Adnet:
- Ele mexe no roteiro, não fica sentado esperando. Certa vez, estava encerrando o programa e falei no ponto: “Estende”. Ele falou “peraí, vamos fazer aquela música do Racionais”. E começou a imitar o Mano Brown cantando um rap inteiro com uma letra para o Quiabo (personagem-escada que divide o cenário com Adnet).
“Ser leigo ajuda na comunicação com o público”
Criar na hora uma letra no estilo do imitado é um talento que Adnet desenvolveu em “Z.É.” – a peça calcada em improvisos, que recebeu um Prêmio Shell em 2004 e reestréia nesta terçafeira no Teatro João Caetano. O ator Fernando Caruso, também do elenco da peça, vê aí um dos maiores trunfos do colega.
- Tem quem imite cantor e tem quem crie letras de improviso. Mas os dois juntos, só ele - avalia Caruso, que convidou Adnet, sem nenhuma experiência como ator, para trabalhar com ele no projeto que desembocaria em “Z.É.”. - Foi muito bom porque nós tínhamos referências de Monty Python, “Saturday night live”, e ele tirava graça de coisas bem cariocas, como linhas de ônibus, times do interior do Rio.
Adnet também acha positivo sua formação não-clássica:
Ser leigo ajuda na comunicação com o público - acredita, antes de soltar um texto que podia estar em “15 minutos”. - Também não gosto dessas coisas que ator faz, tipo cachecol, óculos de aro grosso, tomar café na livraria.
Não-ator entre atores, Adnet também gosta de ser o carioca entre os paulistas na MTV:
Sou o oposto do perfil do canal. Não tenho piercing, tatuagem e não gosto de rock - diz o ator, que vê seu humor como carioca. - Humor carioca é desarmado, menos calculado. Tem essa coisa da praia, andar sem roupa. Paulista tem que apagar a luz para tirar a roupa.
Boa parte de sua graça vem das imitações, que faz com naturalidade. Na entrevista, enquanto conta uma cena que gravou com Selton Mello para “A mulher invisível”, de Cláudio Torres, ele imita o ator. Ser original no formato, porém, é o grande desafio, por isso procura pensar em situações especiais. Assim, já fez Silvio Santos cantando “Sweet child of mine”, do Guns’n'Roses, e Cid Moreira falando de problemas familiares – a preferida de Arthur Fontes, que o dirigiu em “Podecrer!”. Mais que humorista, o diretor louva Adnet como ator:
- Tenho o maior respeito por ele. Vai ficar por muitos anos, como um Lima Duarte.
Em cartaz nos cinemas em “Polaróides Urbanas”, de Miguel Falabella, e em atividade também no teatro e na TV, Adnet planeja estrear um monólogo em 2009.
Terá algo de “15 minutos”, textos críticos sobre coisas banais - diz, referindo-se a um universo temático que, no programa, já passou pelos amigos do Orkut que não falam com você na “vida real” e por atrações trash de TV como “aquele programa que vende anéis”.
Fonte: Jornal O Globo / Segundo Caderno 29 março 2008, página 2




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