Canal pretende fazer uma programação com novas discussões para os jovens
Ter relevância, estar na pauta das conversas de bar dos mais velhos, ser um filtro do que é bom e ruim. Essa era a MTV que nasceu no início da década de 90 e que surgiu para mudar a forma de como o jovem dialogava com a música.
A partir desta segunda-feira, dia 2, o canal pretende emular um pouco daquele cenário que desenhou há quase 20 anos. Para capitanear a nova programação, a jornalista Cris Lobo foi promovida ao cargo de diretora de programação no final do ano passado.
A substituta de Zico Góes tem 42 anos, trabalha há 18 na TV – desde a sua fundação – e quer trazer de volta um público formador de opinião. Para isso, contará na nova grade com programas de duração de 15 minutos, documentários, novos apresentadores, um jornal de notícias apresentado por Cazé e até uma série de ficção – a primeira do canal – prevista para ir ao ar em junho.
A seguir, a entrevista feita no prédio da MTV.
AE – Quando houve essa percepção de que esse público maduro estava sentindo falta da “velha” MTV?
CRIS LOBO – Em 1991 era muito mais fácil você definir essa coisa de público alvo. Hoje, de um lado você tem o jovem que consome o universo pop muito mais cedo. Por outro lado, existem pessoas da faixa dos 40 anos, como eu, que até hoje se interessam por shows como o do Little Joy, por exemplo – antigamente uma senhora de 40 anos ficava em casa. Durante os anos, acabamos tendo uma percepção de que nosso público era adolescente e acabamos esquecendo dos mais velhos. Pessoas de 25, 26 anos começaram a reclamar. Pesei a mão um pouco mais para essa faixa, de 25 anos para cima, na nova programação. O Cazé, por exemplo, vai ter um programa de notícias onde vai poder falar de economia, tecnologia, sociedade.
AE – O ano de 2008 trouxe lições?
CRIS LOBO – Foi um ano ótimo. Implantamos na programação esse formato de 15 minutos. Conseguimos convencer o departamento comercial e a audiência que esse é o futuro, foi uma grande vitória e tivemos as melhores audiências com esse formato. Tivemos a percepção de que as pessoas estão muito ligadas na internet e esses 15 minutos é o tempo que gastam com cada assunto. Não estamos mais escravos de programas de uma ou meia hora.
AE – E o que não deu certo?
CRIS LOBO – Tiramos o programa de namoro, o ‘A Fila Anda’. Tentamos até fazer uma coisa mais inteligente, mas não deu certo Gostamos de falar de sexo, namoro, mas existe uma percepção de que programa de namoro é coisa de adolescente.
AE – Vocês terão novos apresentadores? Qual é a maior aposta?
CRIS LOBO – O Bento Ribeiro (namorado do personagem de Cláudia Ohana em ‘A Favorita’ e que apresentará o programa ‘Furo’). Importamos ele do Rio e pedimos para passar quatro dias por semana aqui em São Paulo. Ele vem conversando com a gente há um ano e meio. Quem só viu a foto dele pode ser que veja só um cara bonitão, mas o Bento tem um senso de humor super diferente, maduro. Ele vai na linha do (Marcelo) Adnet.
AE – A MTV foi acusada de matar os videoclipes há uns quatro anos. Por que agora a volta deles?
CRIS LOBO – A nova grade tem todo um pensamento diferente com relação à programação musical. Vamos ter uma interatividade com celular o tempo inteiro, os clipes vão vir sempre com um algo a mais. Antes, a gente ia pra casa mais cedo pra ver a estreia de um clipe da Madonna, você não tinha outra alternativa. Hoje, o povo descolado já baixa tudo antes no computador. O que eu sempre achei é que os clipes deviam dar algo a mais, mas nunca serem erradicados. Só não temos mais como manter programas com VJs chamando videoclipes nem temos condições de trabalhar cada um deles. Hoje, o jeito de consumir é diferente.
AE – Mas eles estão jogados no horário da madrugada?
CRIS LOBO – Sabe que o horário de madrugada foi o que mais cresceu em audiência? Foi uma surpresa. A madrugada me parece ser um ambiente perfeito para os clipes, para aquelas pessoas que chegam cansadas em casa. O hábito de consumir TV está mais tardio, por isso mesmo todos os nossos programas serão adiantados em meia hora. As pessoas têm chegado mais tarde e, consequentemente, consumido TV mais tarde.
“OS DOIS GRANDES ACONTECIMENTOS DA TV BRASILEIRA EM 2008 FORAM O ‘CQC’ E O MARCELO ADNET.”
AE – MTV perdeu dinheiro com a crise?
CRIS LOBO – A MTV não vende número de audiência, vende um impacto, um engajamento, uma marca. Desde o ano passado voltamos a falar com pessoas mais influentes. Os dois grandes acontecimentos da TV brasileira em 2008 foram o ‘CQC’ e o Marcelo Adnet. Para uma TV do nosso tamanho, é incrível. Temos uma audiência menor, mas o impacto é o mesmo do que um ‘CQC’. Vai no teatro do Adnet, está sempre lotado. Nós temos uns talentos que evoluíram muito. Percebemos que as pessoas estão a fim de consumir coisas boas e queremos ser um filtro.
AE – O Adnet foi muito assediado para sair da MTV?
CRIS LOBO – Super, por quatro canais.
AE – Ele ficou com medo de não dar certo fora, como aconteceu com o Cazé, o Mion e a Cicarelli?
CRIS LOBO – Mas teve muita gente que deu certo, como o Zeca Camargo, a Maria Paula, o Marcio Garcia. O Adnet ficou por que [sic] ele tem uma liberdade de trabalhar aqui dentro que não teria em nenhum outro lugar. Para você conseguir um resultado mais criativo, tem de arriscar. Nós inventamos um programa de televisão que é a cara dele, não pegamos um formato e compramos. Inventamos um programa pra ele e ele tem noção disso.
AE – Por que vocês pararam de cobrir shows ao vivo?
CRIS LOBO – Temos vontade de transmitir os shows, mas o DNA da MTV está mais ligado a bandas novas. Quando alguém grande vem, como a Madonna, conseguimos entrevistas exclusivas, exatamente pela MTV ter se consolidado como o grande nome da indústria musical na TV. Eu gosto bastante de festival, mas agora a nossa preocupação é documentar a música, como fizemos com o projeto Discoteca, que explicava a história de álbuns clássicos do Paralamas, Ultraje, Titãs…
AE – Hoje, os VJs da MTV têm de entender de música como no começo da TV?
CRIS LOBO – No começo, éramos bem segmentados. Tínhamos especialistas de cada estilo. Era o retrato de uma época. Hoje o DJ precisa se relacionar com as coisas dos jovens, ser um consumidor. Não precisa ser um especialista, mas precisa consumir o que o jovem consome. Gostar de celular, tecnologia, ir a shows, baladas.
AE – Para terminar, conte um pouco sobre a primeira série de ficção da MTV?
CRIS LOBO – Fizemos uma parceria com a produtora Mixer e lançaremos em junho ‘Os Descolados’, que conta a história de três jovens de vinte e poucos anos. Vai ter 13 episódios e terá atores desconhecidos, a nossa cara. A dramaturgia feita para jovens/adultos no Brasil tem muito espaço para dar certo.
Fonte: Bem Paraná




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