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Consagrada há décadas no teatro e sucesso na internet, a comédia Stand-up — aquela em que o ator conta piadas sozinho no palco — chega à televisão e mostra que pode renovar os repetitivos programas humorísticos brasileiros

Por Marcella Franco

Ilustração por Gilmar Fraga

Assista a uma seleção de esquetes das novas estrelas que levaram o gênero para a TV

Papagaios, portugueses e loiras estão com os dias contados. Já não é de hoje que programas humorísticos da TV como Zorra Total e A Praça É Nossa investem na mesma e repetitiva fórmula das piadas baseadas em estereótipos. Uma pena, quando se leva em consideração a fantástica tradição do humorismo brasileiro hoje disponível apenas no YouTube: talentos como Jô Soares, Costinha e Chico Anysio, em programas criativos como Satyricon, Balança mas não Cai e O Planeta dos Homens. A última inovação do gênero aconteceu com a criação do Casseta e Planeta — e isso já faz 17 anos. Existe, no entanto, uma esperança. Nos últimos tempos, talentos da comédia stand-up vêm migrando para a televisão, trazendo novas ideias e, no futuro — quem sabe? —, alguma renovação ao tedioso humorismo brasileiro.

O gênero stand-up é aquele em que os humoristas escrevem seus próprios textos e os apresentam num palco sem cenário, figurino ou qualquer outro artifício cênico. Surgido nos Estados Unidos nos anos 40 (um de seus principais expoentes, na década seguinte, foi o hoje diretor de cinema Woody Allen), no Brasil ele explodiu no teatro e na televisão nos anos 50, com a geração dos grandes talentos do humor — José Vasconcellos, além de Jô Soares, Chico Anysio e Costinha. No Brasil, o gênero ficou esquecido durante muito tempo e ressuscitou no fim da década de 1990, quando um concurso do canal por assinatura Multishow teve entre os finalistas os humoristas Bruno Motta, de Minas Gerais, e Diogo Portugal, de Curitiba, ambos com números de stand-up. Depois da competição, os dois ganharam as noites com seus espetáculos individuais, paralelamente a Fernando Ceilão, que se apresentava no Rio de Janeiro. Aproximadamente seis anos depois, foi criado em São Paulo o grupo Clube da Comédia, e assim as portas se abriram definitivamente para a popularização do stand-up. Depois de explodir nos palcos, o gênero ganhou espaço no YouTube — de onde vem gradativamente migrando para a TV aberta.

Não há registros ainda na televisão brasileira de algum programa dedicado exclusivamente à comédia stand-up. E é duvidoso que venha a existir um dia: nem nos Estados Unidos, berço do gênero, foi possível adaptar esse tipo de monólogo humorístico ao formato televisivo. (Lá, no entanto, humoristas egressos do stand-up oxigenaram a programação em shows como Saturday Night Live e Whose Line Is it Anyway?.) O que começa a acontecer aqui é que alguns dos artistas de stand-up vêm fazendo participações especiais em programas de televisão em horário nobre, enquanto outros usam sua experiência nos palcos para criar um novo tipo do humorismo, adaptado à linguagem do novo veículo. É o caso do grande sucesso recente do humorismo brasileiro CQC, sigla de Custe o Que Custar, exibido pela TV Bandeirantes.

EXIGÊNCIAS DE TV

“Pegamos uma geração de comediantes criados na internet e tivemos a sabedoria de valorizá-los”, diz o diretor de televisão Marcelo Tas, um dos criadores da versão nacional do CQC. Baseado num programa homônimo argentino que mistura jornalismo e humor, o CQC levou para a TV três humoristas especializados em stand-up já conhecidos do público por seus trabalhos na internet e no teatro, com grupos de comédia: Rafinha Bastos, Oscar Filho e Danilo Gentili. Antes de serem arregimentados por Tas, os três tinham muitas dúvidas sobre se tinham algo a dizer na linguagem televisiva. “Sempre achei que aquele não era o melhor canal de comunicação com meu público, já que eu já lotava os teatros com a divulgação da internet”, diz Rafinha, que havia sido convidado por programas como Faustão, A Praça É Nossa e Hebe. Danilo também recusava convites pelo mesmo motivo. “Não sabia se aquela galera era o meu público, não queria ter que mudar os assuntos, evitar palavrões. Eu tive medo de ir”, afirma.

A televisão apresenta vários desafios para quem é egresso do teatro. O primeiro é o tempo das piadas, que é bem mais rápido. Como a maioria dos casos de stand-up na TV ocorre no formato de inserções em programas de variedades, cada comediante deve adaptar seu texto para que ele caiba exatamente nos minutos disponíveis, sem ultrapassar a marca. “Há lugares em que nos oferecem três minutos, e aí temos que correr um pouquinho”, diz o comediante carioca Fábio Porchat, que já participou várias vezes de programas como o de Jô Soares e Altas Horas, ambos na Rede Globo. “Isso sem falar na edição, já que, por causa do tempo, às vezes cortam fora a piada. Já fiz um programa onde fui editadíssimo, cortaram um miolo de texto para juntar duas piadas que acharam boas.”

O estilo de Porchat, no entanto, que mescla exagero no gestual e rapidez com as palavras, funciona bem na TV. Egresso do grupo de teatro Comédia em Pé, Porchat sempre teve a televisão entre seus focos de interesse. Nascido na capital fluminense, ele se mudou para São Paulo ainda pequeno e, em 2001, esteve com a turma da faculdade de economia em uma gravação do Programa do Jô. Foi quando ganhou a simpatia do apresentador e a chance de parodiar, no palco, um episódio do seriado Os Normais. A surpresa lhe deu confiança, e ele decidiu voltar para o Rio de Janeiro para estudar artes cênicas. As portas da Globo se abriram de vez quando, já trabalhando como ator, foi visto pelo diretor do humorístico Zorra Total em uma peça e convidado a trabalhar como redator do programa, no fim de 2006.

Outra diferença fundamental é que na TV não existe um termômetro imediato das piadas — como é o público no teatro. “Na TV existe uma claque, só que você não está falando para aquele público, e sim para as pessoas de casa. Mas, ao mesmo tempo, você também depende daquela plateia, e aí fica difícil medir para quem é no final das contas”, diz Porchat.

No início do CQC, isso também aconteceu. “O Rafinha e o Marco Luque (também apresentador) tinham tendência a ganhar a plateia do estúdio. Hoje já mudaram. A performance não é para a plateia, e sim para os milhões que estão atrás daquela câmera. É uma coisa muito importante e sutil”, diz Marcelo Tas. “Trabalhamos muito isso ano passado, porque houve vezes em que os dois saíam arrasados do estúdio porque o público não ria. Não tem nada a ver, porque a plateia deve servir apenas como um termômetro, um apoio. É para acontecer uma troca, mas com outra consciência.”

Ainda que nunca venham a existir programas exclusivamente dedicados ao stand-up, o gênero já conquistou seu lugar definitivo na programação por meio da inovação de linguagem que trouxe ao humorismo televisivo. Novas tendências foram criadas, entre elas a valorização do improviso, característica marcante da linha adotada pelo CQC. Além disso, cada vez mais os comediantes procuram inserir em suas apresentações temas atuais; isso valoriza o texto e aproxima a plateia, que se sente identificada — ou contrariada — com aquelas questões. No YouTube existe um vídeo em que Diogo Portugal faz as duas coisas no palco: no meio de piadas sobre o presidente Lula, o humorista é interrompido por uma mulher na plateia, que diz para ele tomar “cuidado”. A partir daí, ele improvisa piadas, ao longo do show, sobre a intervenção da “fã do Lula”.

Nos Estados Unidos, o stand-up já percorreu esse mesmo caminho, e o resultado foi uma renovação da TV com a criação de programas que absorveram os talentos dessa linguagem, como foi o caso de Saturday Night Live, no ar desde 1975. No Brasil, o que humoristas como Rafinha Bastos, Danilo Gentili e Fábio Porchat já fizeram por um mercado saturado de clichês é visível, mas talvez algo ainda maior esteja em curso, e a nova geração do stand-up nacional venha a participar de uma revolução. É esperar para ver.

Fonte: Revista BRAVO!

Santiago

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